quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

o homem da rádio


E em seguida ouviremos o novo êxito da nova revelação da música nacional, Paula Josefina, com o tema “Voz da chuva”.
Anuncia Anacleto, o locutor da rádio, um senhor dos seus 50 anos e que sempre vivera a paixão louca pela rádio.
Desde muito novo acompanhava as emissões da rádio Frenesim e consigo, por onde andara, levara um pequeno rádio. Uma vez, seu pai até lhe dera uns valentes açoites por este ter quebrado o botão da velha grafonola da família a tentar sintonizar o 95.2 FM da rádio Frenesim.
21:30horas, chegara a hora do seu programa predilecto. A Hora do Amor. A sua rubrica de eleição e de alguns meses. Ao fim e ao cabo era o estilo de programa que lhe enchera as noites. Em que o telefone da emissora não parava de tocar, conselhos, pedidos, desabafos e até algumas anedotas sobre o amor e alguns pedidos rocambolescos eram sugeridos.
Era uma rubrica que de alguma forma ainda o fazia sentir vivo. A ouvir os pensamentos dos outros sobre o amor, fazia-o pensar um pouco menos em si e na sua vida melancólica.
23horas, como o normal quotidiano e depois do seu programa finalizar com um saudoso, ”Vivam e ámen”, prepara-se para sair da rádio. Veste o seu velho casaco de couro e sai da estação, dirigindo-se até à tasca Arrebite, onde já os seus compinchas, Serafim, Miguel e Rodrigo o aguardam com o copo de whisky na mão e um baralho de cartas em cima da mesa preparados para a jogatina de fim de noite.
Ao fim de algumas partidas, Anacleto anuncia aos seus camaradas que “por hoje j´+a chega…”. A hora já vai longa e hoje está mais cansado do que o costume. O peso da idade já não ajuda e algo lhe cansara a cabeça mais do que o costume, havia algo que ele suspeitara que estivesse para acontecer.
Dá um ultimo trago do seu whisky, uma ultima passa no seu cigarro e enquanto veste o seu casaco , despede-se dos seus três velhos amigos.
Miguel, era um velho comandante das Forças Armadas e que se aposentara, alegadamente por traumas de Guerra. A Guerra de Ultramar tivera efeitos tardios no seu cérebro.
Serafim era o barbeiro do bairro. Um senhor dos seus 58 anos, distinto e de barba rija e um gabarolas de primeira instancia, e que não se fartava de se gabar aos sete ventos ter aparado a barba aos cinco violinos do Sporting.
Rodrigo era o médico do bairro. Fora transferido há vinte anos pelo Sistema Nacional de Saúde de um hospital Central para aquele bairro. Segundo ele, foi uma espécie de castigo por se ter recusado a cobrar uma cirurgia a uma família sem posses para pagar.
Anacleto, era dos quatro, o mais reservado de todos. Vivia apenas no seu mundo e não era de muitas palavras, apesar de ser um sujeito de sorriso rasgado.
Desceu a escadaria que o levaria para fora da tasca, atravessa a rua e em meia dúzia de passos enfia a chave na porta do seu prédio.
Cumprimenta os seus dois jovens vizinhos que estão no hall a fumar um charro. Sobe degrau a degrau em forma de caracol e finalmente se prepara para entrar em sua casa.
O reconforto de seu habitat, do seu terreno, do seu mundo há largas dezenas de anos. Liga a televisão para ver as últimas noticias e pescar alguma informação de útil para a sua emissão radiofónica do dia seguinte.
Senta-se no seu sofá de cabedal e entre Um gole no cálice de vinho de porto e uma fumaça no seu charuto cubano, vai escutando as palavras oriundas da televisão.
Acaba por adormecer com as pernas esticadas sobre a mesa de centro e de televisão ligada.
De manha, acorda com o toque do telefone, era necessário ir de imediato para a estação pois o seu chefe quisera reunir com ele.
Meio adormecido ainda, apenas abanara com a cabeça e murmurava “dentro de uma hora estarei aí…”
Acende o seu cigarro matinal, veste uma camisa enrodilhada que encontrara no guarda-fatos, e enquanto bebe uma chávena de café vai olhando pela janela, vendo o sol que se coloca bem alto.
No alto, o sol brilha já forte e quente e apesar de ainda serem 9:30h, já se fazia sentir um intenso calor.
O seu Fiat 600, leva-o até à Igreja onde este, todas as manhas rezava um Pai-nosso e uma Ave-maria.
Devoto de Deus e na religião Católica, fazia crença na oração matinal todos os dias e que lhe traria paz de espírito. Foi um hábito que lhe fora incutido desde muito cedo e que ele sempre o mantivera.
Chegado à estação, senta-se no sofá a fumar seu cigarro enquanto aguarda que o seu director o receba.
Para quem o chamara de forma tão urgente, deixá-lo uma hora à espera era de bradar aos Céus.
Anacleto estava a ficar irrequieto e desconfiado. Da sua chamada urgente, e de tal demora em o receber.
Destro do gabinete, seu chefe encontrava-se sobressaltado, como quem procura a forma mais educada e correcta de se informar algo, de dar uma má noticia.
Finalmente, tem autorização para entrar no cubículo do lobo. Local assim conhecido po norma de quando alguém ser chamado às altas patentes de chefia, era pela existência de algo de mau.
Mas, Anacleto, nada temia. Pelos seus 50 anos de vida e pelos seus 30 anos de rádio, já nada o fazia temer.
O director começara com um discurso de belas palavras, de rodeios e saudosistas, fortalecendo todo o préstimo e empenho e os anos que Anacleto tivera e investira naquela rádio, tecendo fortes e rasgados elogios ao seu trabalho e demais comentários.
Anacleto, de braços cruzados ia ouvindo as palavras do seu director sem nada dizer e apenas sorrindo, característica, intrínseca, sua.
A meio do discurso, o locutor ergueu-se da cadeira, acende um cigarro dirigindo-se há janela, questionado o seu chefe.
- Sabe a diferença entre um locutor e um telefonista?
O director acenou a cabeça em forma positiva respondendo:
- O locutor é uma pessoa que fala; pessoa que formula um enunciado, radiotelegrafia profissional que apresenta programas, lê textos, faz comentários etc. e um telefonista é uma pessoa encarregada do serviço telefónico público ou particular.
Salutando tal resposta, Anacleto questiona-o novamente:
- Sabe qual a grande diferença e semelhança entre o Sol e a Lua?
Desta vez, o director já não aprontou nenhuma imediata resposta, ficando a olhar para Anacleto.
Anacleto soltou um sorriso matreiro e respondeu:
- A grande diferença, é que o Sol brilha de dia e a Lua brilha de noite. A grande semelhança é que ambos nos conduzem e iluminam a todos os lados.
Num jeito de gozo, Anacleto, saiu do seu gabinete, dirigindo-se ao seu local de comunicação com os seus ouvintes, começando a arrumar todos os seus pertences. Alguns deles, traziam-lhe à memória histórias felizes de um passado.
Tudo encaixotado, dava apenas uma caixa de médio porte. Foi saindo da rádio com a cabeça erguida e despedindo-se dos seus velhos amigos.
Chegou ao seu habitat, amontoou a caixa no meio de outras caixas que foi guardando com o passar dos anos.
Abriu a janela de sua casa, respirou fundo, abrindo uma garrafa de champanhe para festejar a sua liberdade temporal.
23horas. Desceu as escadas em forma de caracol, olhou de novo para o alto e a lua brilhava intensamente.
Juntou-se aos seus três velhos amigos, pegou no seu copo de whisky, no seu cigarro e passaram a noite na jogatina.

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