Um choro
Ouço um choro
De onde virá, não sei
A esquina que dobro é a mesma de todos os dias e em nenhum
dos dias se ouvira tal som.
Os meus olhos buscam em todas as direcções possíveis os
olhos que vertem tal gemer de lágrimas de dor, de sofrimento.
Não é que esse choro seja de elevado som. O ampere de quem o
chora deve estar no mínimo.
Mas com o silencio da noite, da rua vazia de sapatos e de
borrachas de rodas redondas torna aquele som mais perfeito, limpo e audível de
quem o reproduz.
Os meus dois ouvidos por momentos se tornam num nariz canino
e começam a farejar aquele zumbido. Onde me levaria, não sei…quem o produz,
muito menos o sei.
Será criança?
Será adulto?
Será um homem, uma mulher, um idoso, um transexual? Tantas hipóteses
para uma única fórmula.
O ruído se torna cada vez mais audível ao meu sensor que o
fareja desde a esquina que, todos os dias miraculosamente, é dobrada às 20h em
ponto. A menos que a tasca do Zé Gilberto feche mais cedo.
Dobrado sobre um cartão de papelão grosso que muito
provavelmente e pela sua largura e cumprimento deve ter sido enfiado ali dentro
uma coisa grande, talvez um frigorifico ou talvez um…frigorifico.
Sobre esse mesmo cartão já muito embebido das lágrimas escorridas
pela face daquele ser que as derrama, encontrasse despojado um corpo. Um corpo
que calculo eu teria mais ou menos 12cm. mas já era difícil poder calcular o
seu tamanho já que esse ser não parava quieto por causa do soluçar devido ao
choro incessante.
- Quem és tu? Pergunto eu com um tom de voz calmo e suave
- Deixe-me estar, vá-se embora – respondo aquele aspecto de
pessoa
Com tal brevidade e prontidão de resposta fico eu olhar para
ele ou ela, e a pensar com os meus botões… hum, algo aqui ano está bem. Ou serei
eu que estou com falta de entendimento ou este ser é que não está mesmo bem.
- Desculpe a minha insistência, não é que me interesse muito
saber quem você seja, até porque nem tenho nada a haver com isso, mas só
gostava de poder ajudar, saber se precisa de alguma coisa.
- Já lhe disse para se ir embora. Não preciso de si nem de ninguém.
Ninguém me pode dar o que perdi.
Penso por momentos que tal coisa terá sido de tal importância
para ter deixado aquele ser naquele estado. Penso que talvez um ente querido,
talvez um emprego se aquele ser fosse um adulto, talvez uma jóia, talvez um
animal adorável de estimação.
- Mas que perdeu?
- O meu espelho – responde o ser no meio de uns quantos
soluços.
- Desculpe? Não percebi.
- O meu…o meu…espe…espelho….o meu espelho
Nestes parcos segundos de tentativa de uma conversa e de
ajuda não tinha percebido que o ser gaguejava, mas ficara curioso com a sua
perda.
- Desculpe intrometer-me, mas o que não falta por aí são espelhos.
- Vá-se embora
- Pode sempre substituir a sua perda por um outro espelho. Talvez
um novo quem sabe
- Não entende. Deixe-me
- Mais uma vez peço desculpa, mas não vale a pena ficar
assim por uma coisa dessas.
- Não vale? Era para ele que eu olhava todas as manhas. Era o
primeiro ser que me sorria de manha. Que me mandava um abraço e me dava um
gesto no cabelo como em miúdo o meu pai me fazia. Era ele que me conhecia tão bem
mas tão bem como eu mesmo, da mesma forma que acordava com um sorriso com ele também
era com ele com que me deitava da mesma maneira. E do lugar em que ele estava
eu via a estrela mais bonita que todas as noites brilha na constelação mais
brilhante. Ainda dizes que não vale a pena estar assim?
- Espera, mas isso que estas a falar…isso…
- Sim, é isso mesmo
- Mas como….
- Como? a tua mudança, a tua mudança não te permitiu ver
como o teu coração sofria. Deixaste de te ver ao espelho. Deixaste de ser tu
mesmo e deixaste de ver a tua própria estrela. E agora que eu, aqui despojado
num canto qualquer que choro e verto lágrimas é que te lembras de farejar quem
as derrama. Fareja e ouve é quem as faz derramar. Fareja o teu corpo e fareja a
ti mesmo. Será que ainda consegues sentir o teu próprio cheiro? Será que te
ainda consegues ouvir a ti mesmo? Que ainda conseguiras ver a estrela brilhar
ali mesmo à tua frente?
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